Teatro Paiol reabre reformado para atrair novo público e apresenta festival de monólogos

Em 1969, os atores Miriam Mehler e Perry Salles, então casados, caminhavam pela Rua Amaral Gurgel, na Vila Buarque, quando enxergaram uma tipografia com uma placa de “aluga-se”. Foi ali, depois de uma reforma transformadora, que, em outubro do mesmo ano, a dupla inaugurou o Teatro Paiol com À Flor da Pele, peça de Consuelo de Castro sob a direção de Flávio Rangel.
O Paiol atravessou a década de 1970 como ponto de efervescência com espetáculos emblemáticos produzidos por Miriam. Em 1980, a sala foi arrendada por outro casal de atores, Nicette Bruno e Paulo Goulart, que, por mais quase vinte anos, manteve a relevância do espaço, driblando, inclusive, a degradação do entorno do Minhocão. Na última década, antes da pandemia, algumas iniciativas tentaram reabrir o teatro sem grande êxito.
Sob a inspiração dos tempos de intensa atividade, o Teatro Paiol – rebatizado de Teatro Paiol Cultural – volta ao cartaz sob o comando de cinco sócios que investiram 120 mil reais do próprio bolso. O marco dessa retomada é o Festival de Monólogos do Paiol, que apresentará até o fim de março dez solos em três sessões semanais. Protagonizado por Nilton Bicudo, o espetáculo O Antípassaro, dirigido por Elias Andreato com base na vida e na obra da poeta Orides Fontela, abre a agenda nesta sexta, 13, e sábado, 14, às 20h, e domingo, 15, às 19, com ingressos a R$ 70.
Em 1971, para estrear Abelardo e Heloísa, a atriz promoveu uma nova reforma para instalação de urdimentos que permitissem acomodar a sofisticada cenografia. Três anos depois, sob a direção de Antunes Filho, Miriam protagonizou Bonitinha, mas Ordinária, sob os aplausos de Nelson Rodrigues na plateia. No dia seguinte, a peça foi censurada, e ela viajou a Brasília para defender seu projeto diante dos militares. Voltou na mesma noite e, direto do aeroporto, subiu ao palco para mostrar o trabalho liberado. “Eles exigiram trinta cortes, mas nada relevante, era só tirar do texto palavras como ‘general’ e ‘prostituta'”, lembra.
Filha do meio de Nicette Bruno e Paulo Goulart, a atriz Beth Goulart recorda da primeira empreitada da mãe no Paiol, em 1979. Foi uma remontagem de Os Efeitos dos Raios Gama nas Margaridas do Campo, que, além, de mãe e filha, trazia no elenco Bárbara Bruno, a primogênita dos Goulart, e Eleonor Bruno, mãe de Nicette. “O Paiol tinha como característica a proximidade com o público, a ideia de um teatro íntimo, aberto a novas linguagens e ao diálogo entre artistas e espectadores”, define a artista.
Beth lembra que, na sequência, Nicette e Paulo lançaram um grande sucesso, Dona Rosita, a Solteira, de Federico Garcia Lorca, e, em 1988, veio a elogiada montagem de À Margem da Vida, de Tennessee Williams. “Minha irmã, Bárbara, também desenvolveu o projeto Jovem Paiol, que promovia cursos e espetáculos destinados à educação e à formação de público, como um inspirado no poeta Luís de Camões e outro em Edgar Allan Poe”, declara Beth. “Foi um espaço relevante e torço que essa vocação seja retomada.”