Agentes de influencers garimpam likes, gerenciam cancelamentos e dão colo

Fabiana Carrazedo, 33, fala sempre sorrindo, mas garante que convencer as marcas a contratar influenciadores digitais requer habilidade e conhecimento do mercado, pois a concorrência é grande — principalmente depois da pandemia, quando muitos brasileiros viram as redes sociais como uma saída para a crise financeira.
Cabe a um agente de influenciadores provar que seus clientes trarão a visibilidade que as marcas buscam na mídia, uma habilidade que Fabiana, que é publicitária, começou a construir quando trabalhou num veículo de comunicação. Lá, ela enxergava oportunidades comerciais para blogueiros que não negociavam com as marcas. Ao mesmo tempo, via os criadores de conteúdo ganharem destaque na internet. “Aí eu vi o universo se formando”, recorda. Pediu demissão em 2016 e criou a agência Noá.
Fabiana aprendeu na prática que não basta negociar contratos e fechar novas campanhas para seus agenciados. Os influenciadores passam por crises de criatividade, têm uma preocupação constante com o engajamento e ficam estressados quando o cliente muda tudo em cima da hora ou exige que o trabalho seja refeito várias vezes. Sem contar os haters que surgem do nada, os cancelamentos e os problemas emocionais que interferem no processo de criação.
Eles querem ouvir opiniões sobre o conteúdo e também conversar sobre o que os aflige, mas nem sempre agentes e influenciadores concordam.
Para Fabiana, além de competências técnicas, os agentes precisam desenvolver as emocionais, para não ver os criadores de conteúdo apenas produtos, mas também como seres humanos. No fim das contas, são elas que ajudam o profissional a enfrentar crises que podem acontecer com uma palavra mal colocada pelo influenciador ou uma atitude reprovada pela comunidade. Nessas horas, é papel do agente apontar erros, sugerir que o agenciado peça desculpas publicamente e mude de comportamento.
Formada em moda, Ana Paula Passarelli, 36, foi gerente de marketing de grandes empresas e sempre trabalhou com influenciadores digitais. Os 14 anos de estrada na internet deram a ela a certeza de que o número de seguidores não é tudo. Uma de suas agenciadas, a Blogueira de Baixa Renda, foi convidada a integrar o casting da Brunch quando tinha menos de 10 mil seguidores. Hoje, tem 200 mil seguidores no Instagram e quase 300 mil no YouTube.
Passa diz que fica com o coração apertado vendo as centenas de influenciadores que batem à sua porta em busca de um lugar ao sol na internet. Não com os que chegam exalando vaidade por terem muitos seguidores, em busca de fama e presentes das marcas. Mas com os que realmente têm potencial. “É muito difícil dizer não para eles. Mas só tenho dois braços e uma cabeça. Meu time tem 15 pessoas pra atender quase 50”. Para que esses sonhos não morram, ela e algumas de suas criadoras de conteúdo fazem mentorias, a fim de que as pessoas saiam de lá pelo menos com um norte de como sobreviver das redes sociais.
Passa menciona uma consequência inevitável de tudo isso: a precarização do trabalho, já que cada um cobra o que quer e muita gente trabalha para ganhar qualquer coisa, como uma peça de roupa ou uma cesta de café da manhã. Uma autoexploração que ficou ainda mais evidente na pandemia. Passa opina que o problema não é só a categoria não ter um piso salarial. Para a especialista, ainda falta ética e uma postura mais colaborativa na internet.

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